quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Instrumentos Musicais Preferenciais: O Violino Caiçara.
A introdução de instrumentos musicais europeus entre os nativos, desde a colonização, é fato conhecido da nossa história. Entre os depoimentos que relatam a misicalidade da nossa história. Entre os depoimentos que relatam a musicalidade dos índios do Brasil, é sugestivo o do jesuíta A. Sepp sobre o talento musical dos Guarani de Yapeyu. Parece ter sido notável a versatilidade dos indígenas como artesãos de instrumentos, cantores ou instrumentistas. Os atuais Mbya e Xiripa-Guarani ainda incluem rabel e guitarra em seus repertórios sagrados. Se, no inicio do século XVII, já se construíam nas missões jesuíticas do Sul órgãos, cítaras, clavicórdios e fagotes e se, nessa época, já se cantavam na Colônia peças musicais escritas por mestres europeus e regidas pelo sistema tonal, não será difícil compreendermos a presença de instrumentos como a viola de dez cordas ( de arame, para os portugueses) e sobretudo o violino nos sertões e costeiras do litoral paulista, de Ubatuba a Cananéia. Em São Sebastião e na Ilhabela encontrei, com rabequista caiçaras de praias distantes, violinos de fabricação alemã e italiana. Um deles obtido em barganha com uma espingarda. A organização instrumental que encontrei nos núcleos de produção musical, tanto no perímetro urbano quanto na área rural de Ubatuba, fica assim distribuida: para o repertório sagrado, violino, duas ou mais violas de dez cordas, caixa e pandeiro; para o repertório profano, o mesmo conjunto, além de cavaquinho e violão ( este, mais raro). O acordeão foi registrado uma só vez nos cinco anos de pesquisas, e numa situação atípica, em reunião patrocinada por autoridades locais, de que também participavam músicos de origem mineira e nordestina, para os quais acordeão ou sanfona têm presença obrigatória. Nesse encontro, os músicos caiçaras, discretos, me confidenciaram que a sanfona atrapalhava o ritmo do bate-pé. A natureza ruidosa do acordeão certamente não se ajusta aos volteios e apojaturas minuciosos do violino e não corresponde às expectativas estéticas do ambiente sonoro caiçara. Instrumentos de sopro não fazem parte dos grupos tradicionais, mas flauta transversal e clarineta ( industrializadas ) podem aparecer nos conjuntos urbanos chamados Reis de música, nome que dão aos grupos de Reis ( folias de Reis) tidos como mais sofisticados, em oposição ao que chamam Reis de caixa - segundo os próprios músicos, mais rústicos e antigos, originários ou praticados nos sertões. Ambos atuam no ciclo de Natal, de novembro a janeiro, respectivamente , na cidade e na roça. A viola tem sido, com o pandeiro e a caixa, instrumento indispensável nos encontros musicais. Sem ela não há música coletiva possível. O violeiro solista ( a que chamam versista ) se faz acompanhar do segundo violeiro ( a que chamam segunda ou contador ), que complementa a voz solista a intervalos de terceira ou sexta acima ou abaixo da voz principal. Acompanham-se por acordes rasqueados à guisa de reforço tonal e rítmico, ou por cordas ponteadas, que sublinham a voz principal a intervalos de terceira, sexta ou décima acima da melodia cantada. Algumas vezes o segunda decide contrapontear a linha melódica.
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