domingo, 13 de dezembro de 2009

Danças e formas musicais.

Como se disse, as celebrações religiosas desempenham importante papel como depositárias dos repertórios sagrados e como veículos de circulação dos repertórios sagrados e como veículos de circulação dos repertórios profanos. Nos encontros de celebração, após as práticas devocionais, é comum cobrirem ou isolarem ícones e objetos sagrados, para depois seguirem-se bailaricos, transformadores desses encontros em festas, onde, entre outras, se dançam peças profanas como a xiba, a ciranda, a tontinha, a canoa e a marrafa. A esse repertório tradicional podem juntar-se peças e danças urbanas como sambas, modas de viola, baladas e chorinhos; nesse caso, admitem-se novas formações instrumentais. As crescentes transformações na região têm trazido desenvolvimento, mas este inevitavelmente vem associado a um clima de violência. Inaugurou -se o medo em Ubatuba e, com ele, diminuíram os encontros musicais interpraias e interbairros. As pessoas fecham-se em casa. Reuniões entre músicos-instrumentistas, versistas e grupos de dançadores tornam-se cada vez mais raras, o que tem dificultado a prática musical coletiva. A desarticulação entre música cantada e música dançada tem resultado na independência de algumas formas coreográficas como a tontinha, a canoa, a ciranda, a cana-verde e a xiba, que se transferem para o âmbito do repertório puramente vocal-instrumental; assim é possível ouví-las cantadas com acompanhamento ou em versão unicamente instrumental , sem participação de dançadores. Não deixa se ser um modo de sobrevivência dessas danças, que passam a ganhar autonomia como formas musicais. Aliás, como ocorreu na Europa dos séculos XV e XVI, quando certas danças perderam seu uso coreográfico e resultaram em formas camerístico-instrumentais, como a corrente, a sarabanda, a galharda, o minueto e outras, retomadas posteriormente como paradigmas de composição por músicos de diferentes épocas, como Bach e Debussy. O repertório caiçara inclui, portanto, uma dezena de formas originárias de danças, atualmente independentes da coreografia e consolidadas enquanto formas musicais. REPERTÓRIO TRADICIONAL CAIÇARA. A busca das prováveis raízes da música caiçara remete, antes de tudo, às fontes da música portuguesa de tradição oral. Sem uma sondagem nesse campo será difícil entender a criação musical caiçara. O colonizador trouxe consigo práticas que, acomodadas ao novo meio, resultaram num produto musical derivado. Este, embora gerado sob inspiração de matrizes lítero-musicais portuguesas, tinha necessariamente de receber contribuições da nova terra. Aliás, quando se fala em música portuguesa, deve-se entendê-la num sentido amplo: não só a de Portugal continental, mas também a dos arquipélagos dos Açores, Madeira e antigas colônias ultramarinas, incluindo-se, além do Brasil, as da Indonésia, Ásia e África, sem perder de vista ainda os núcleos musicais implantados por emigrantes Ilhéus portugueses, radicados no Canadá e nos Estados Unidos. Deve-se lembrar também que nos séculos passados, tanto as políticas de fixação dos emigrados portugueses ao longo do território brasileiro quanto seus diferentes locais de origem, teriam determinado entre nós usos e estilos musicais diferenciados. Embora pequenos em área, os Portugais do continente e de ultramar abrigam extraordinária variedade de repertórios musicais. Certos traços da música portuguesa não lograram aqui florescer, como por exemplo o uso da gaita de foles ( de largo emprego em várias regiões portuguesas, mas com raras referências no Brasil, das quais se pode lembrar a atual, mas pequena participação em peças do repertório da Banda Sinfônica do Corpo de Fuzileiros Navais). Outros traços tiveram continuidade garantida, como o uso dos instrumentos de corda dedilhada ou friccionada, de sopro e de percussão. Herdamos ainda da tradição musical européia filtrada por Portugal a adoção do sistema tonal maior/menor, o mensuralismo, os critérios para afinação de instrumentos, a tendência para os sons rebatidos, as formações instrumentais dos conjuntos alentejanos e trasmontanos, que combinam flautas, palhetas e tambores, modelos esses recorrentes nas nossas versões nordestinas de pífaros com tambores, a que chamam bandas de cabeça ou esquenta-mulher. No litoral sudeste e sul, a presença da cultura açoriana terá marcado o fazer musical das populações praianas. Ainda que reambientada e com novos significados, essa presença surge, por exemplo, nos critérios para organização de conjuntos instrumentais litorâneos ( cavaquinho, pandeiro, viola, rabeca, caixa e ferrinhos); na predileção por sons vocais superagudos ( as nossas tipes, chamadas guinchos em Portugal); na conservação de antigas matrizes do cancioneiro popular português. Enfim, terá havido aparentemente um clima de compatibilidade ( como diria Nettl) favorável à continuidade de modelos musicais trazidos com a colonização ou em períodos de migrações posteriores.

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